Requalificação da Av. 25 de Julho

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A proposta de requalificação da Av. 25 de Julho tem como ponto de partida a tríade inovação, sustentabilidade e vitalidade, incorporando não apenas soluções de desenho urbano (como moderação de tráfego, infraestrutura verde e mobiliário urbano interativo), mas também uma proposta de processo participativo na qual o projeto é concluído em oficinas com a comunidade local. Ferramentas como sensores de qualidade do ar e de contagem de tráfego permitem avaliar e monitorar o impacto esperado. 

 

O projeto valoriza o presente ao qualificar os espaços públicos respeitando a tradição e a vocação da cidade, ao mesmo tempo em que se orienta ao futuro ao incorporar uso de tecnologia, exercício de democracia direta e medidas de mitigação e adaptação às mudanças do clima.

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2022

✰ 3º Lugar no Concurso Público Nacional de Arquitetura e Urbanismo para a Requalificação da Av. 25 de Julho em Flores da Cunha/RS

Flores da Cunha: viver o presente, pensar o futuro 


Passear pela pista de corrida em uma manhã de junho, sentindo o sol aquecer o corpo. Pedalar até o trabalho respirando o ar leve da serra, ainda mais puro após a redução da quantidade de veículos no centro da cidade. Sentar em um banco na avenida para conversar com o vizinho e olhar o movimento. Caminhar sem pressa, olhando as vitrines. Apreciar as árvores floridas na primavera. Se demorar no caminho de volta da escola, parando para brincar nos novos equipamentos instalados na rua. A atenção plena proporcionada pelos estímulos biofílicos e lúdicos do ambiente urbano nos conectam com o presente. Entretanto, para ser capaz de participar dos principais debates do século - como o enfrentamento às mudanças climáticas, o reflexo da revolução tecnológica nas cidades e a incorporação da sociedade na tomada de decisões - é preciso pensar no futuro. 

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dimensões de projetos

As 3 dimensões do projeto se refletem tanto no desenho do espaço urbano quanto na escolha de equipamentos e no desenho de um processo participativo. Para buscar inovação, são implantados ao longo da via torres e totens equipados com roteadores de wifi público e estação meteorológica; 5 deles também contam com sensores da qualidade do ar e de fluxo de veículos.

 

Na dimensão sustentabilidade, é prevista a escolha de materiais adequados, arborização abundante com espécies nativas e adoção de infraestruturas verdes para obter benefícios como drenagem de águas pluviais e melhoria do microclima.

 

A dimensão vitalidade se expressa por meio da criação de calçadas adequadas e distribuição de diversas experiências ao longo da via, como espaços de brincadeira, eventos, áreas de estar, etc., além de alguns espaços a serem definidos pela população em oficinas participativas.

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A rota cicloviária é composta por um trajeto contínuo do pórtico sul ao pórtico norte, com implantação que minimiza a quantidade de cruzamentos, o que proporciona não apenas mais fluidez ao ciclista como também maior segurança viária. O percurso tem vocação para servir de meio de transporte ativo para trabalhadores das indústrias dos trechos 1 e 3, como espaço para a prática de ciclismo esportivo (muito comum na serra gaúcha) e como rota de passeio de moradores e turistas. Ao longo do percurso, são propostos 4 pontos de aluguel de bicicletas e diversos paraciclos.

O fluxo de veículos leves e os estacionamentos são mantidos conforme solicitado pelo edital do concurso. A distribuição do espaço viário, entretanto, é repensada para priorizar pedestres e ciclistas. Nos trechos 1 e 3, com caráter mais rural, a velocidade máxima é de 50 km/h, sem cruzamentos com vias laterais e com retornos aproximadamente a cada 500 m. No trecho 2, na área urbana da cidade, a velocidade diminui para 30 km/h, e a via é elevada ao nível dos passeios como medida de moderação de tráfego. 

O fluxo de veículos pesados, essencial para o escoamento da produção industrial e agrícola do município, é mantido nos trechos 1 e 3 e desviado por meio do sistema binário em fase de projeto no trecho 2. São previstos dois retornos no trecho 2, nos dois extremos do segmento.

 

projeto participativo

A proposta de processo participativo prevê a realização de oficinas com moradores, trabalhadores das indústrias locais e entidades de comércio e de turismo durante as etapas de anteprojeto de cada trecho. As oficinas têm como objetivo elencar usos desejados pelos usuários para os espaços sem uso determinado neste estudo preliminar.

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mobiliário urbano e materiais

A concepção do mobiliário urbano parte das premissas de flexibilidade, resistência e economicidade. Os elementos são padronizados e replicáveis, podendo ser dispostos em variadas configurações ao longo da avenida. Os materiais utilizados unem a tradição das construções históricas da região — pedra basalto e madeira — com a versatilidade dos centros urbanos contemporâneos — concreto e metal. Além disso, são resistentes, de fácil manutenção e podem ser fornecidos localmente, de modo a contribuir com a sustentabilidade do projeto. Destaca-se o uso de metal cinza grafite como elemento unificador e identificador da proposta.

Para a implantação da nova composição paisagística, em seus distintos estratos – arbóreo, arbustivo e herbáceo - foram indicadas espécies nativas e aclimatadas com características adequadas à arborização urbana, em consonância com o Manual de Arborização Urbana fornecido pelas bases do concurso. As composições arbustivas e herbáceas exploram texturas e cores por meio de arranjos que proporcionam floração em diversas épocas do ano.

 

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​O Centro de Atendimento ao Turista, localizado próximo ao Pórtico Sul (existente), possui implantação oblíqua à via, com sua fachada frontal visível a quem chega pela estrada. Uma torre de identificação com letreiro luminoso auxilia sua visualização à distância, promovendo reconhecimento da cidade pelos turistas e recepção identitária dos próprios moradores. Ainda, a torre serve de suporte para equipamentos de wi-fi público, estação meteorológica compacta e sensores, além de contar com uma área de manutenção de bicicletas na sua base. No entorno, uma área de estar ao ar livre serve como espaço para espera e descanso, enquanto uma estação de aluguel de bicicletas possibilita que moradores e turistas desfrutem da ciclorrota, uma vez que o sistema proposto permite a devolução em outros pontos do percurso. O estacionamento com 10 vagas possui implantação discreta, encoberto por árvores que proporcionam sombra aos veículos estacionados. 

O paisagismo do trecho incorpora aspectos cênicos, de conforto bioclimático e infraestrutura verde. Uma linha de ipês-roxos e jacarandás nas bordas externas do perfil viário formam um túnel de árvores nativas com floração exuberante durante a primavera, criando uma nova identidade à chegada da cidade. As grandes extensões de área verde contribuem para a permeabilidade do solo, e os canteiros da avenida consistem em jardins de chuva, elementos de biorretenção que compõem a infraestrutura urbana,  tendo função de manejo do escoamento das águas pluviais.

trecho 1

O primeiro trecho da intervenção constitui a principal forma de acesso a Flores da Cunha, oferecendo a primeira experiência no município aos seus visitantes. O trecho, entretanto, caracteriza-se por ainda preservar aspectos rodoviários muito marcantes, embora sua classificação tenha sido alterada de “rodovia” para “avenida” ainda em 1990, em uma ação que desviou grande parte do fluxo de veículos pesados para a ERS-122. Inserido em um contexto industrial, de serviços de médio porte e de acesso a loteamentos isolados da malha urbana, o trecho recebe intervenções que buscam reforçar seu caráter urbano, requalificando a Avenida tanto para o uso cotidiano dos moradores e trabalhadores da região, quanto para aprimoramento da sua vocação turística, valendo-se do seu potencial paisagístico. 

A reordenação do espaço viário parte da criação de um canteiro central com ciclovia e pista de corrida e caminhada, proporcionando novos espaços para a prática esportiva, para a mobilidade ativa e para o percurso turístico. O posicionamento da ciclovia no canteiro central evita cruzamentos com as vias e acessos laterais, tornando o trajeto mais seguro para o ciclista. Interrompido apenas a cada 500m (intervalo no qual situam-se os retornos para veículos leves), o percurso linear garante fluidez ao fluxo de bicicletas, tornando a rota mais confortável e convidativa à adesão do modal ativo. O perfil da via ainda conta com canteiros vegetados e passeios nas laterais. Os trechos com conflitos nos acessos laterais são resolvidos com a criação de vias paralelas de acesso local, minimizando as interrupções do passeio ao longo do eixo e separando o trânsito de veículos pesados (que atualmente geram lentidão em função do acesso às empresas). Os veículos pesados conseguem aceder a todos acessos laterais realizando retorno no início ou no final do trecho, enquanto os veículos leves têm à disposição outros 5 retornos ao longo do segmento.

 

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trecho 2

Ao adentrar a área central de Flores da Cunha, a Av. 25 de Julho passa a ter um entorno mais consolidado e denso. A presença de edificações junto ao alinhamento, os térreos comerciais e os diversos pontos de referência proporcionam um caráter urbano e vibrante para o trecho. A partir dessas características, a proposta busca tornar a experiência de circular ou permanecer na avenida mais agradável e significativa por meio de um reordenamento do espaço viário que prioriza a mobilidade ativa e potencializa o uso e a apropriação pelas pessoas, fomentando a vitalidade urbana. Para isso, o primeiro passo foi reduzir a área destinada aos modais motorizados. No trecho da avenida em nível, a fiação é subterrânea, que reduz riscos e gastos com manutenção ao mesmo tempo em que libera o campo visual da avenida, causando uma percepção mais positiva do espaço urbano.

O trecho dá continuidade à rota cicloviária por meio de uma ciclofaixa bidirecional central. A escolha desta tipologia levou em consideração a baixa velocidade dos automóveis no trecho e a minimização de conflitos com pedestres e estacionamentos de veículos. Para garantir a segurança dos ciclistas, a ciclofaixa conta com sinalização horizontal (blocos coloridos) e vertical (balizadores com iluminação) e, a partir do final do binário, torna-se uma ciclovia lateral segregada por canteiro.

O trecho da avenida entre a Igreja Matriz da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes e a Praça da Bandeira é tratado de forma excepcional por sua relevância enquanto ponto de referência e espaço para realização de eventos ao ar livre, como feiras e celebração de Corpus Christi. Considerando que a recente reforma da Praça da Bandeira integrou esse trecho da via com sua paginação de piso, a proposta busca uma interação leve que valorize a obra existente e a conecte à nova identidade criada para a avenida. Assim, são propostas faixas de pavimentação lateral em basalto para destacar a intervenção e são adicionados postes de iluminação cênica, balizadores removíveis e mobiliário urbano reduzido, de modo a não competir com as pré-existências e proporcionar uma ampla área livre para os usos esporádicos.

 

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trecho 3

O acesso norte da avenida pode ser tanto a porta de entrada para quem chega a Flores da Cunha pelo acesso secundário da ERS-122 quanto o final de um prazeroso trajeto iniciado no Pórtico Sul. Em ambos os casos, esse percurso de pouco mais de 2 km ficará marcado como um passeio que proporciona belas visuais graças à amplitude do campo visual e às suas características rurais. Ainda que haja previsão de expansão do uso residencial ao longo do trecho, que já serve como acesso a loteamentos e empresas, o projeto propõe que a sua essência bucólica seja valorizada como potencial turístico e identidade local. Paralelamente, as intervenções propostas buscam agregar infraestrutura adequada e segurança ao uso cotidiano para prática esportiva e de lazer ao longo do trecho. 

Para proporcionar melhor infraestrutura para a prática esportiva e o lazer, no lado oeste da via foi criado um passeio convencional, enquanto no lado leste foi criado um passeio mais largo, que também pode ser usado como pista de corrida. Ambas as calçadas em blocos intertravados foram equipadas com mobiliário urbano como bancos à sombra, chimarródromo e áreas de apoio à prática esportiva com bebedouros, paraciclos etc. A ciclovia fica do lado leste da via, de onde é possível apreciar a paisagem dos vinhedos, sendo segregada do fluxo de veículos por um canteiro arborizado e do fluxo de pedestres por um desnível. 

 

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 A reordenação do espaço viário tem como premissas manter duas pistas em sentidos opostos separadas por canteiro central, transformar a ciclofaixa existente em uma ciclovia e qualificar o espaço destinado aos pedestres. Assim, para compatibilizar o fluxo de veículos pesados e leves com a segurança de ciclistas e pedestres em uma caixa viária de 20 metros, as faixas de rolamento em asfalto são dimensionadas com 3,5 metros de largura e o canteiro central é remodelado. Além disso, são inseridos canteiros laterais para segregar as calçadas e a ciclovia,  travessias elevadas para melhor visualização dos pedestres, diminuição da velocidade dos veículos e redução dos raios das esquinas. A drenagem pluvial é feita por meio de calhas laterais e jardins de chuva.

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equipe:

Camila Bellaver Alberti

Mariana Mocellin Mincarone

Amanda Gabriella Michelotto

Helena Pagel Classen

João Pedro Chaves da Silva